quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O Momento Socrático: Cuidado e Conhecimento de Si Mesmo



Arlindo Picoli
Na Apologia de Sócrates, sabemos por meio de Platão, que Sócrates é o encarregado pelos Deuses de lembrar e incentivar os homens a ocuparem e cuidarem de si mesmos. Ao proclamar o cuidado de si em Atenas, ele abre mão de uma série de situações consideradas vantajosas, como fortuna e cargos de poder e que agindo assim, conseguiu despertar, pela primeira vez, os cidadãos de Atenas de um profundo sono. Portanto o cuidado de si é a realidade mais admirável, pois proporciona algo equivalente a uma vida consciente, ativa e desperta.
Como relatado em O Banquete, Sócrates dominava a anakhóresis, prática do retiro em si mesmo, bem como a técnica de resistência. Andava descalço sobre o gelo com mais facilidade do que faziam seus companheiros calçados, e podia manter-se imóvel durante todo um dia e uma noite. Tudo isso parece indicar a sua maestria nas técnicas do cuidado de si.
Quando o “conhece-te a ti mesmo” surge na filosofia, precisamente com Sócrates, aparece como uma aplicação particular de uma regra mais geral: o cuidado de si. No Primeiro Alcibíades, Sócrates só decide abordar Alcibíades porque percebeu que ele não se contenta mais em desfrutar de sua beleza, riqueza e influência; ele quer se tornar um político, ele quer “transformar o privilégio de status, a primazia estatutária em governo dos outros” (FOUCAULT, 2004, p. 44). Sócrates diz que ele deve aplicar seu espírito sobre si mesmo, pois, para ser um político, deve o indivíduo saber as qualidades que possui. Ele deve pensar nos seus rivais de dentro de Atenas, e também nos de fora da cidade, sejam espartanos ou persas. Tanto os rivais de Esparta quanto os da Pérsia tiveram uma educação melhor que Alcibíades, pois ele ficou aos cuidados de um escravo ignorante. Conhecendo-se a si mesmo prudentemente, ele pôde perceber sua inferioridade não só na educação, mas também na riqueza e na incapacidade de ter um saber, uma tékhne a qual compensasse essas diferenças. No diálogo que trava com Sócrates, Alcibíades entende que não é capaz de definir o que é o bom governo da cidade, e admite ser possível que tenha sempre vivido em estado de ignorância. E é neste momento que Sócrates o anima, afirmando, para tanto, que se ele tivesse percebido isto com cinqüenta anos, não seria nada fácil tomar-se a si mesmo em cuidado: epimelethênai sautou, mas ao contrário, ele está justamente na idade certa para isto (FOUCAULT, 2004, p. 47).
No Primeiro Alcibíades, Foucault destaca quatro características do cuidado de si. Partindo de um privilégio, em primeiro, ocupar-se consigo mesmo é condição para governar os outros. Segundo, o cuidado de si mesmo pode compensar a insuficiência na educação, atribuída à ignorância de seu pedagogo, bem como sua educação erótica, fruto do tipo de interesse dos seus amantes, os quais, apenas desfrutaram de sua beleza e não o incentivaram a cuidar de si mesmo. Em terceiro, ele está na idade correta, por não estar mais na mão dos pedagogos e, ademais, na medida em que atingiu determinada idade, seus amantes desinteressaram-se por ele. Aqui, o cuidado de si é “uma necessidade de jovens numa relação entre eles e seu mestre, ou entre eles e seus amantes, ou entre eles e seu mestre e amante” (FOUCAULT, 2004, p. 49). Em quarto, por fim, há a ignorância do objeto. Alcibíades não sabe o objetivo e o fim da concórdia dos cidadãos como atividade política. Por não saber o que é o bom governo, precisa cuidar de si mesmo.



Vemos, então, surgir, a partir do cuidado de si duas questões. A primeira diz respeito ao sujeito: o que é o si mesmo? E a segunda: qual é a tékhne para um bom governo? “Qual o eu de que devo ocupar-me a fim de poder, como convém, ocupar-me com os outros a quem devo governar?” (FOUCAULT, 2004, p. 51). Resumindo as duas perguntas: o que é o si mesmo, e o que é o cuidado necessário para governar os outros?
Para responder a essas questões, seguiremos as analogias de Sócrates, nas quais diferenciamos os sujeitos e aquilo do qual se servem. Podemos distinguir, na arte da sapataria, os instrumentos, como o cutelo, e o sapateiro. O mesmo verifica-se na música, na qual distinguimos a cítara de seu músico. Mas, e quando agitamos a mãos? Temos aí as mãos e aquele que se serve delas, o sujeito. O corpo não pode servir-se do corpo, o elemento o qual se serve das mãos, dos olhos, da linguagem e de todo o corpo só pode ser a alma. Servir-se este que, em grego khrêsthai/khrêsis, indica um comportamento, uma atitude, relações com os outros e consigo mesmo, mas que não é instrumental, nem substancial, mas sim transcendente e subjetiva.
Ao concebermos a alma enquanto sujeito, o cuidado de si passa a distinguir-se em três outros tipos de atividades. Sócrates enuncia o exemplo do médico: quando o médico adoece e aplica sobre si sua arte médica, podemos dizer que ele se ocupa consigo mesmo? A resposta é não, pois ele está se ocupando com o corpo, e não com o si mesmo da alma. A segunda atividade é a economia: quando um proprietário ocupa-se com suas posses, seus bens e sua família, ele está se ocupando consigo mesmo? Não, ele está se ocupando com o que é dele, e não consigo mesmo. Os pretendentes de Alcibíades ocupavam-se com o próprio Alcibíades? Da mesma forma que nos exemplos anteriores, a resposta é negativa, haja vista que eles estavam ocupados com a beleza de seu corpo. Na verdade, quem cuida de Alcibíades é Sócrates, pois apenas ele cuida de sua alma. Sócrates é muito mais que um professor sofista, é mais que um pedagogo, é o mestre da epiméleia heuatoû, pois:

Diferente do professor, ele não cuida de ensinar aptidões e capacidades a quem ele guia, não procura ensiná-lo a falar nem a prevalecer sobre os outros, etc. O mestre é aquele que cuida do cuidado que o sujeito tem de si mesmo e que, no amor que tem pelo seu discípulo, encontra a possibilidade de cuidar do cuidado que o discípulo tem de si próprio (FOUCAULT, 2004, p. 73).

Sendo assim: o que é o ‘eu’ com o qual é preciso ocupar-se? A alma. O que é ocupar-se consigo mesmo, o que é o cuidado de si? É conhecer a si mesmo, gnôthi seautón. Foucault nos diz que o aparecimento dessa referência ao “conheça a si mesmo”, no Primeiro Alcibíades, é totalmente diferente de outras duas anteriores. Enquanto a primeira surge como prudência, para que Alcibíades relacione suas ambições com suas capacidades, isto é, para que ele perceba suas limitações e a importância em ocupar-se consigo mesmo; a segunda ressurge para responder quem é o si mesmo com que se deve ocupar. E, finalmente, agora o gnôthi seautón emerge de maneira direta e decisiva, para dizer que o cuidado de si é o conhecimento de si mesmo. E este momento afetará toda a cultura greco-romana. A partir daí, surge a justificativa para que o cuidado de si, ou seja, para que todas as práticas espirituais, sejam organizadas em torno do “conheça a ti mesmo”. Apesar disso, em Platão, o conhecimento de si é apenas um aspecto extremamente importante do cuidado de si, relação esta que será revertida alguns séculos depois pelo neoplatonismo. (FOUCAULT, 2004, p. 216).
E como devemos nos conhecer? Para chegar a esta resposta, Sócrates parte do exemplo do olho e do espelho. Quando nos vemos no olho de alguém, semelhante a nós, vemos-nos a nós mesmos. Mas este si mesmo que se vê não é graças ao olho, mas à visão, a qual é também no olho do outro. Para a alma ver-se, é preciso que se volte para um elemento de sua própria natureza. E qual é a natureza da alma? O pensamento e o saber. Sendo divinos o pensamento e o saber, a alma deve voltar-se para o divino, com o fim de conhecer-se a si mesma e receber a sabedoria, sophrosýne. De maneira que, a alma conhecerá a diferença entre o bem e o mal, entre o verdadeiro e o falso, e saberá, enfim, governar a cidade.
No final do diálogo, Alcibíades compromete-se a ocupar-se com a justiça, pois ocupar-se consigo mesmo ou com a justiça, são equivalentes, já que tudo surgiu a partir da preocupação em se tornar um bom governante. Infelizmente isto não se deu, e é o mesmo Alcibíades que, já mais velho, no O Banquete, lamenta ao dizer que acabou envolvendo-se com os assuntos políticos de Atenas em vez de cuidar de si mesmo (FOUCAULT, 2004, p. 215).
A questão do cuidado de si implica uma atitude ou um conjunto de atitudes, mediante as quais o sujeito transforma-se a si mesmo e que estão relacionadas a uma conversão do olhar, ou seja, uma mudança no foco da atenção, que se desloca daqueles valores considerados importantes pela maioria (ói polloí) em direção àqueles que são cuidados por poucos (ói prôtoi), tais como a alma, o pensamento e a verdade. quando impera o privilégio do conhece-te a ti mesmo não são mais as ações de transformação do sujeito e as atitudes que têm primazia, mas o conhecimento como ingresso na verdade. É justamente neste momento do cuidado de si em sua relação com o “conheça a si mesmo”, ou seja, o momento socrático, no qual Foucault localiza a passagem da espiritualidade à filosofia. Enquanto a espiritualidade consistia em atividades constituintes do sujeito, a filosofia passou a se ocupar com o acesso à verdade.

REFERENCIAS:

FOUCAULT, Michel. A Hermenêutica do Sujeito. São Paulo: Martins F ontes. 2004.

PLATÃO.  Alcibíades I e II. Lisboa: Editorial Inquérito. S.d.


EXERCÍCIOS:
Investigue as práticas do zen-budismo e escreva um relato dessa experiência indicando elementos do cuidado de si.


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Você tem que ser obrigatoriamente mentiroso para ser presidente?¹

 Michel Onfray
Pois bem, isso ajuda. Mal imaginamos como um homem decidido a sacrificar sua vida para à verdade poderia fazer uma carreira política, seja com o menor ou nos altos escalões. Bem, em termos de política, não existem mais que duas questões: como chegar ao poder? E uma vez alcançado, como mantê-lo? As duas perguntas têm a mesma resposta: todos os meios são bons. Chamamos maquiavelismo a essa arte de afastar completamente a moral para reduzir a política a puros problemas de força. Em outras palavras, principalmente o ditado popular: o fim justifica os meios: tudo é bom, desde que seja para o que se pretende. A partir desta perspectiva, a mentira proporciona uma arma formidável e eficaz.



O acesso ao poder envolve demagogia, ou seja, a mentira para o povo. Os candidatos para as funções oficiais sempre acabam renunciando desde sempre à verdade para limitar-se a sustentar um discurso adulador destinado aos eleitores: o povo, excepcional, genial, ancestral, inventiva, criador, etc. Em vez de atender o interesse público que a função demanda, o mandato político ansioso de mandato busca o consentimento da maioria - cinquenta e um por cento, o que é suficiente. Para obtê-lo, inunda, seduz, persuade e promete, tem um propósito útil para recolher os votos, mas não há intenção de honrar suas promessas- das quais afirmará, mais tarde, que só envolve aqueles que acreditaram.

¹ Tradução nossa

 REFERENCIAS:

ONFRAY, Michel. Antimanual de filosofia: lecciones socráticas y alternativas. 4.ed. Madrid: EDAF, 2007.

Questões de múltipla escolha sobre Maquiavel:

Clique no link abaixo, digite seu nome e sobrenome, e clique em "START" para iniciar. Lembre que as questões de 5 a 8 tem mais de uma alternativas correta.

domingo, 7 de setembro de 2014

Tenho medo, logo existo¹

Michel Onfray

De que lógica procede o irracional? Do medo ao vazio intelectual, da angústia ante a evidência dificilmente aceitável, da incapacidade  dos homens para assumir sua ignorância e limitação dos seus faculdades, entre elas a razão. De onde podem  dizer "não sei" ou "ignoro por que", "não compreendo”, inventam  histórias e acreditam nelas. Para não ter que transgredir com um certo número de evidências, com as quais, sem  dúvida,  temos que contar (a vida é curta, logo vamos  morrer -  mesmo que seja até os cem anos, é curta em comparação com a eternidade do nada de onde viemos e para o qual vamos...-; temos  pouco ou nenhum poder sobre o desenvolvimento deste breve existência; depois da morte não há nada mais a decomposição, e não uma vida de outra forma, etc), os homens inventam ficções e lhes pedem auxílio.

O irracional preenche as brechas que a razão abre ao destruir ilusões. Incapazes de viver unicamente segundo o real racional, os humanos constroem um mundo completamente irracional mais fácil de habitar ao estar cheio de crenças que procuram uma aparente paz consigo mesmo. O raio cai sobre uma árvore? Um homem da  antiguidade greco-romana no sabia por que, e inventa um deus malvado, vingador, ciente de corrupção humano, que utiliza o feixe para corrigir a seus semelhantes. Zeus e seus relâmpagos, eis aqui a razão da tormenta grega ou romana. Mais tarde, o mesmo raio percebido por um homem do século XX, um pouco à corrente da física moderna, se converte na resultante de uma troca de polaridade entre nuvens carregadas de eletricidade e o sol. O rastro do movimento da energia em um arco elétrico, eis aqui a razão do raio. Razão antiga e mitologia contra a razão moderna e científica: o irracional de ontem se converte no racional de amanhã e para de inquietar, de dar medo.



O irracional é o que ainda não é racional, quer seja para um individuo, quer  seja para uma época ou uma cultura, e não o que não o será nunca. O que hoje está além da compreensão leva os homens a lançar hipóteses extraídas das fontes do irracional, onde não existem limites: se pode recorrer a imaginação mais fértil, às ideias más estranhas, desde que se tenha a eficaz ilusão de fazer retroceder a ignorância. A partir do momento em que o  problema já não se coloca, após a descoberta da solução por meio da razão, a crença é  abandonada e vai para  o museu de equívocos, que até recentemente se acreditava verdadeiro.

No entanto, sobre certas questões impossíveis de resolver com o
progresso da ciência, da investigação, da técnica, o irracional  reina como senhor durante longo tempo. Assim, diante de questões metafísicas (etimologicamente, aquelas que surgem além da física): de onde viemos?, quem somos?, onde estamos indo?, utilizando expressões cotidianas, em outras palavras: por que tempos que morrer?, o que há após a morte?, por que temos tão pouco poder sobre a nossa existência?, como será o futuro?, que sentido dar à existência?, com efeito ser mortal, não sobreviver, sofrem determinações, não escapar à necessidade, ser confinado a este planeta, são algumas dos motivos que fazem funcionar o motor irracional à toda velocidade.

Todas as práticas irracionais pretendem dar resposta a estes problemas angustiantes: a existência de espíritos imortais que se movem num mundo onde poderiam ser interrogados com a ajuda de uma mesa giratória nos acalma: a morte diz respeito apenas ao corpo, não a alma, quem conhece a imortalidade; a capacidade de ler e prever o futuro com signos, linhas da mão, borra de café, uma bola de cristal, cartas, fotos, nos acalma: o futuro já está escrito em algum lugar, alguns (médiuns) que podem acessar esse lugar  e revelar o seu conteúdo, eu não devo temer o bom ou mau uso da minha liberdade, de minha razão, de minha vontade, que deve vir virá; a existência de objetos voadores não identificados, portanto, planetas habitáveis​​, uma vida fora do sistema solar, de forças misteriosas que vêm das profundezas das galáxias, regozijamo-nos: podemos crer que a nossa sobrevivência em outra parte está assegurada por poderes que governam o cosmos e, portanto, a nossa pequena existência, etc


O irracional é um alívio, sem dúvida, mas uma ajuda pontual, por que não cumpre suas promessas. Em vez disso, a razão pode ser igualmente útil, mas com mais segurança: principalmente quando se concentra na destruição de ilusões e crenças, ficções criadas pelos homens para o conforto com ultramundos, os mais além inventados, que sempre dispensam um bem viver vida aqui e agora. A filosofia e o uso crítico da razão permitem obter outras soluções, neste caso, certezas viáveis ​​e consolações muito mais seguro: para a mesma evidência (a morte, a limitação dos poderes humanos, a pequenez do homem diante da imensidão de mundo, a angústia frente ao destino), a filosofia fornece meios para controlar o nosso destino, para nos converter em atores de nossa existência, para nos libertar dos medos inúteis e paralisantes -  e não nos abandona, atados de  pés  e mãos, como as crianças, a mitos de ontem ou hoje. Pare de olhar para as estrelas, o seu futuro não está escrito  em nenhum lugar: está por ser escrito – e só você pode ser o autor.

¹ Tradução nossa
REFERENCIAS:


ONFRAY, Michel. Antimanual de filosofia: lecciones socráticas y alternativas. 4.ed. Madrid: EDAF, 2007.



Exercícios: 

Comente e lembre de se identificar corretamente.

    
      1. Leia o texto de Michel de Onfray e responda, de quais filósofos citados, o pensamento dele mais se aproxima?
    

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A musa da Filosofia

Arlindo Picoli
O homem livre não pensa em nada a não ser na morte; e a sua sabedoria é uma meditação não sobre a morte, mas sobre a vida (ESPINOSA).

Somos programados instintivamente para evita-la a qualquer custo, e por isso mesmo, é muito perigoso tentar salvar uma pessoa que está se afogando. Entretanto, uma depressão muito forte pode levar algumas pessoas a procura-la antes do tempo. Apesar de natural, ela está na categoria dos temas que muitos não se sentem a vontade em falar. Mas o mesmo não ocorre na história da Filosofia, onde desde sempre inspirou o pensamento dos maiores pensadores da humanidade, estamos falando da morte:

A mesma coisa em nós, estarmos vivos ou mortos acordados ou adormecidos, sermos jovens ou velhos. Porque estes se mudam naqueles e aqueles novamente se transformam nestes”. (Heráclito, Frag. B, LXII)

Como sê lê, Heráclito lidava com a morte de uma maneira muito natural, não oposta à vida, como se fosse a mesma coisa, num fluxo contínuo, como a vigília e o sono, ou a juventude e a velhice. Assim como acordar e dormir, viver e morrer são fenômenos complementares. Isso se justifica porque a vida é uma sequência infindável de mortes; afinal todos os dias morremos um pouco.:  “do arco o nome é vida e a obra é morte”, todas as coisas estão em oposição umas com as outras, o que explica o caráter mutável de tudo.

Além disso, graças à biologia, hoje sabemos que as células de nosso corpo morrem e são substituídas por outras, e é isso que garante a nossa sobrevivência saudável, apesar de parecer contraditório, a morte é parte indispensável do processo que chamamos vida, ou seja quando vemos um organismo vivo nunca percebemos, mas é a morte que mantém ele vivo, como dizia Heráclito: “morte é tudo que vemos despertos, e tudo que vemos dormindo é sono”
Apesar de ser uma das poucas certezas inquestionáveis, para nós humanos, a morte é revestida de mistério.

A dificuldade de aceita-la produz a necessidade de lidar de alguma forma com ela. Para superar essa dificuldade as diferentes religiões criaram ritos e mitos, moldando a crença de cada povo, na esperança de conviver melhor com a dor que ela representa. De forma diferente, sem recorrer às certezas ou aos dogmas,  a Filosofia buscará argumentos racionais para superar o medo final com que nossa existência nos desafia. Sabemos que vamos morrer, portanto nada melhor do que entende-la como parte da nossa realidade do que mitifica-la ou  trata-la como se fosse um tabu.
Apesar de difícil, a  morte é um tema fundamental para a filosofia a ponto de Schopenhauer (1788-1860), nos lembrar:

 A morte é a musa da filosofia, e por isso Sócrates a definiu como “preparação para a morte”. Sem a morte, seria mesmo difícil que se tivesse filosofado (Schopenhauer). 

Isso porque a inquietude produzida pela experiência da morte de alguém próximo nos “tira o tapete” e nos obriga a pensar no sentido que damos às nossas próprias vidas, no que estamos fazendo com nós mesmos e com os outros.

Mas sobre a morte os Filósofos nunca estiveram de acordo, portanto, por meio de alguns fragmentos, vamos pensar sobre o que alguns deles têm a nos dizer sobre ela.
No diálogo Fédon, que trata do período que antecede a morte de Sócrates, Platão apresenta sua teoria sobre a imortalidade da alma. E convida a todos a lidar com a morte de forma tranquila e serena. Para isso usa a experiência de morte que teve com seu mestre Sócrates, acusado de corromper a juventude, foi julgado e condenado pela assembleia ateniense à morte pela ingestão de um veneno, a cicuta. Ao invés de se desesperar, ou de fugir, aceitou sua sentença e aproveitou seus últimos momentos para se cercar de seus amigos e deixou um exemplo para a humanidade. Para Sócrates o verdadeiro Filósofo não teme a morte:
Ao vires um homem revoltar-se no instante de morrer, não será isso prova suficiente de que não se trata de um amante da sabedoria, mas amante do corpo? Um indivíduo nessas condições também será, possivelmente, amante do dinheiro ou da fama, se não o for de ambos ao mesmo tempo (PLATÃO, Fédon, XIII)



A ideia fundamental difundida por Sócrates e Platão é que o corpo representa uma prisão para a alma, portanto a morte representaria a libertação desta, rumo ao mundo das ideias perfeitas. Portanto nada de ruim haveria na morte.

[...] se ela [a alma] é pura no momento de sua libertação e não arrastar consigo nada corpóreo, por isso mesmo que durante a vida nunca mantivera comércio voluntário com o corpo, porém sempre evitara, recolhida em si mesma e tendo sempre isso como preocupação exclusiva, que outra coisa não é senão filosofar, no rigoroso sentido da expressão, e preparar-se para morrer facilmente... Pois tudo isso não será um exercício para a morte? (PLATÃO, Fédon)

Epicuro, filósofo hedonista, pensava diferente, pois  não haveria motivo para tratar o corpo de forma tão radical e afastado da alma. Defendia a busca da Felicidade (edaimonia), mas para isso era necessário a prática da ataraxia - isto é, calma e apatia em relação aos desejos do corpo. Os prazeres então poderiam ser buscados, mas sempre de forma moderada pela razão. Para ele a morte não era nada e não devíamos ficar desesperados esperando por ela:

Habitua-te a pensar que a morte não é nada para nós, pois que o bem e o mal só existem na sensação. Donde se segue que um conhecimento exato do fato de a morte não ser nada para nós permite-nos usufruir esta vida mortal, evitando que lhe atribuamos uma ideia de duração eterna e poupando-nos o pesar da imortalidade. Pois nada há de temível na vida para quem compreendeu nada haver de temível no fato de não viver. É, pois, tolo quem afirma temer a morte, não porque sua vinda seja temível, mas porque é temível esperá-la. Tolice afligir-se com a espera da morte, pois se trata de algo que, uma vez vindo, não causa mal. Assim, o mais espantoso de todos os males, a morte, não é nada para nós, pois, enquanto vivemos, ela não existe, e quando chega, não existimos mais (EPICURO).

Como pensador materialista,  Epicuro  adotou a teoria do átomo de Demócrito, assim a morte seria a simples dissociação dessas partículas para se reunirem mais tarde dando origem a outros seres .

Outro pensador que via a morte de forma natural, mas alertava  que o medo dela poderia comprometer nossa felicidade era Lucrécio:

É preciso, antes de tudo, expulsar esse medo do Aqueronte [o rio que separa o mundo dos mortos e dos vivos] que, penetrando até o fundo de nosso ser, envenena a vida humana, colore todas as coisas do negror da morte e não deixa subsistir nenhum prazer límpido e puro (Lucrécio).

Eu seu ensaio “Que filosofar é aprender a morrer” Michel de Montaigne, dizia que a morte não nos diz respeito e nos tranquiliza quanto ao tempo que se deixa de viver devido à morte.

Ademais, ninguém morre antes de sua hora. O tempo que abandonais não era mais vosso que o tempo que se passou antes de vosso nascimento: e tampouco vos toca (Montaigne).

Na presença iminente da morte, em geral pensamos em sermos bons, em dizer o  quanto gostamos das pessoas, agradecer pelo fizeram por nós, em perdoar, em revelarmos segredos, etc. É como se ela nos convidasse a sermos bons, verdadeiros, corretos, éticos. E mais, em sua presença, é urgente sermos bons, imediatamente,  já. Em seu Tractatus Lógico-Philosophicus,  Wittgenstein (1889-1951), nos convida a superar o medo de nossa finitude e incerteza do além com a intensidade do presente:

A morte não é um acontecimento da vida. Não há uma vivência da morte. Se se compreende a eternidade não como a duração temporal infinita, mas como atemporalidade, então vive eternamente quem vive no presente, A nossa vida é infinita, tal como nosso campo visual é sem limites (WITTGENSTEIN).

Filósofo existencialista, para Heidegger a presença constante da morte é o que nos caracteriza enquanto homens, ou seja, ela é o nosso “princípio de individuação”.  Mal nascemos e já temos ela como possibilidade. Enquanto não morremos, sempre ainda podemos ser algo que ainda não fomos. Portanto, a morte é o que nos faz completos.

A questão da constituição ontológica de ‘fim’ e ‘totalidade’, obriga a tarefa de uma análise positiva dos fenômenos da existência até aqui postergados. No centro destas considerações, acha-se a caracterização ontológica do ser-para-o-fim em sentido próprio da presença e a conquista de um conceito existencial da morte. (HEIDEGGER).

Para Sartre, também existencialista, não devemos temer o sofrimento ou a morte, mas sim o sofrimento ou o nosso fim sem motivos, em vão. Ele retoma o nada em que a morte converte todas nossas possiblidades.

A morte é a nadificação  dos nossos projetos, é a certeza de que um nada total nos espera (Sartre).

Para ele a morte nos faz humanos. O medo, a fuga ou o apelo ao sobrenatural nos arrasta ao inumano, e mesmo aí o ser humano é livre para escolher e assumir a responsabilidade pela sua escolha.



Longe de esgotar o assunto, o que pretendemos aqui foi provocar o pensamento sobre o tema da morte e incentivar a investigação filosófica. Cabe à cada um tomar para si essa tarefa, lembrando sempre que filosofar é  duvidar e que as certezas paralisam o pensamento,  nos impedindo de sermos vivos, de sermos simplesmente seres humanos.

EQM: Experiência de Quase Morte

Em 1975 o Doutor Raymond Moody  publicou um livro em descrevia os relatos de pessoas que passaram por experiência de quase morte (EQM), pessoas que sofrem uma parada cardíaca e são reanimadas, ou mesmo certas cirurgias, podem acordar com a lembrança de estados alterados de consciência e alguns elementos em comum foram observados nos relatos.

Apesar da diversidade, cinco características constantemente são descritas pelos pacientes: sentimento de paz, experiência fora do corpo, entrar na escuridão, visão da luz e entrar na luz. O psicólogo Kenneth Ring acrescenta que muitas vezes são descritos: o encontro com parentes falecidos, a visão de belas cores ou ouvir música, encontrar um ser ou uma presença e também uma "revisão da vida".

Apesar do fascínio que a EQM provoca, ela não é a prova definitiva da existência da alma e muito menos da vida depois da morte, já que se uma pessoa narra a experiência, é justamente porque não veio à óbito. Médicos e pesquisadores atribuem esse fenômeno às alterações químicas que afetam o cérebro nesse estado. Sabemos, por exemplo, que a falta de oxigênio pode afetar a percepção a ponto de produzir alucinações em diversos casos clínicos.

Apelar para a EQM para provar a vida após a morte é quase tão irracional quanto tratar um mito como um fato real, só revela o medo que caracteriza o ser humano que ainda não desenvolveu o suficiente sua capacidade crítica e racional. A morte é um fato como a própria existência. Se ninguém tem pavor em existir, então por nos causa tanto medo? As fantasias e falácias criadas em torno dela paralisam nosso pensamento e comprometem nossa liberdade. Como dizia Sêneca “não é da morte que temos medo, mas de pensar nela", quem teme sua natureza é porque ainda não aprendeu a pensar de maneira filosófica,



O Último Dia
Meu amor
O que você faria se só te restasse um dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria
Ia manter sua agenda
De almoço, hora, apatia
Ou esperar os seus amigos
Na sua sala vazia
Meu amor
O que você faria se só te restasse um dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria
Corria prum shopping center
Ou para uma academia
Pra se esquecer que não dá tempo
Pro tempo que já se perdia
Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia
Se o mundo fosse acabar
Me diz, o que você faria
Andava pelado na chuva
Corria no meio da rua
Entrava de roupa no mar
Trepava sem camisinha
Meu amor
O que você faria?
O que você faria?
Abria a porta do hospício
Trancava a da delegacia
Dinamitava o meu carro
Parava o tráfego e ria
Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria
Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria
Me diz o que você faria
Me diz o que você faria...
REFERENCIAS:

Vídeo O Último Dia

EQM

Nova Escola

HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Vol. 2. Trad. Márcia de Sá Cavalcante. 5º Ed. Petrópolis RJ: Vozes, 1997.
MONTAIGNE. Os Ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Tradução de Paulo Perdigão. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1997


Atividades avaliativas:

Comente e lembre de se identificar corretamente.

      1.  Discuta o significado da frase de Montaigne "Quem ensinasse os homens a morrer, os ensinaria a viver", e comente aqui as conclusões do grupo.
   
      2.   Após ler e refletir sobre a letra da música de Paulinho Mosca, responda: O que você faria hoje se soubesse que iria morrer amanhã?

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

III Festival IMAGENS EMdiálogo

Regulamento

1. O Festival e a Organização:
O IMAGENS EMdiálogo é um Festival de vídeos temático anual que tem como objetivo principal fomentar a realização audiovisual nas escolas como canal de comunicação para o diálogo sobre o direito à escola pública de qualidade. O Festival IMAGENS é organizado pelo Portal Ensino Médio EMdiálogo. 
2. O tema:
Para participar do III festival você precisa fazer um vídeo sobre o tema “Uma escola sem muros”. Você pode inscrever vídeos de ficção, documentário, animação e experimental.
3. Local e data de exibição:
O festival acontecerá na internet, no Portal EMdiálogo (www.emdialogo.uff.br), no período entre 17 e 31 de outubro de 2014.
4. Requisitos para a inscrição:
4.1 O festival acontecerá na internet, no Portal EMdiálogo (www.emdialogo.uff.br), no período entre 17 e 31 de outubro de 2014.
4.2 Você precisa estar matriculado no Ensino Médio de uma escola pública no Brasil;
4.3 Você pode inscrever quantos vídeos quiser. Não há limite de inscrições por estudantes ou por escolas; 
5. A inscrição:
5.1 Poderão ser inscritos vídeos realizados por estudantes do Ensino Médio de escolas públicas do Brasil;
5.2 O período de inscrição vai de 04 de agosto a 01 de outubro de 2014 (data de postagem do vídeo no portal EMdiálogo);
5.3 A inscrição do vídeo só pode ser feita na internet, no portal EMdiálogo;
5.4 Antes de fazer a sua inscrição, coloque o seu vídeo no Youtube. O link gerado pelo Youtube deverá ser colado no formulário de inscrição. Importante! Nas configurações de privacidade do Youtube, clique em modo ‘não listado’ (veja como fazer isso no site do Festival IMAGENS EMdiálogo, clicando no link ‘ajuda’ http://www.emdialogo.uff.br/festival/ajuda);

8.2 Prêmio Portal EMdiálogo:
A comissão de seleção indicará quatro vídeos, dentre os selecionados, para receberem o Prêmio Portal EMdiálogo. 
O prêmio consiste em:
  • Troféu IMAGENS EMdiálogo para cada vídeo premiado;
  • Medalha para os integrantes das equipes de cada vídeo premiado (limitadas para os estudantes relacionados no box ‘PARTICIPANTES’ da ficha inscrição. O box permite a inscrição de até dez estudantes por vídeo);
  • Participação de dois representantes de cada vídeo premiado em evento de premiação que será realizado na cidade de Niterói, no Rio de Janeiro (os representantes viajarão com despesas de passagem aérea, hospedagem e alimentação pagas pela organização do festival);
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quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O amor é uma falácia

Adaptação do texto de Max Shulman para dramatização.
Narrador: Eu era frio e lógico. Sutil, calculista, perspicaz, arguto e astuto – era tudo isso – e acreditem - modesto. Tinha o cérebro poderoso como um motor de Fórmula 1, preciso como uma balança de farmácia, penetrante como um bisturi. E tinha - imaginem só - apenas 17 anos. Não é comum ver alguém tão jovem com um intelecto tão gigantesco. Tomem, por exemplo, o caso do meu colega de sala, Pedro.
Mesma idade, mesma formação, mas burro como uma vaca. Um bom sujeito, compreendam, mas sem nada lá em cima. Do tipo emocional. Instável, impressionável. Pior que tudo, dado a manias. Eu afirmo que a mania é a própria negação da razão. Deixar-se levar por qualquer nova moda que apareça, entregar-se a alguma idiotice só porque os outros a seguem, isto, para mim, é o cúmulo da loucura. Pedro, no entanto, não pensava assim.
Certa tarde encontrei-o deitado com tal expressão de sofrimento no rosto, se contorcendo, que o meu diagnóstico foi imediato: apendicite!
Mateus: Não se mexa. Vou chamar o médico.
Pedro: (balbuciou): Aiiii... Aiiiii... iPhone!
Narrador: Interrompi minha corrida.
Mateus: iPhone?
Pedro: (gemendo): Quero um celular da Apple.
Narrador: Percebi que o seu problema não era físico, mas mental.
Mateus: Por que você quer um iPhone?
Pedro: (gritando e dando tapas na própria cabeça): Eu devia ter adivinhado que ia precisar de um! Como um idiota, gastei todo o meu dinheiro e agora estou liso!
Mateus (incrédulo): Quer dizer que você está sofrendo por isto?
Pedro: Todos os alunos antenados da escola têm! Onde você tem andado?
Mateus: Na biblioteca, um lugar não muito frequentado pelos alunos antenados da escola.
Narrador: Ele levantou e pôs-se a andar de um lado para o outro.
Pedro: O som é perfeito, a cam é perfeita, preciso conseguir um iPhone. Preciso!
Mateus: Por que, Pedro? Veja a coisa de maneira racional. Pense! Enfiar um fone dentro do ouvido, para ouvir música muito alta o dia inteiro, prejudica a audição. Pode até te deixar surdo! Além disso, esses alunos antenados vivem tentando enviar e receber mensagens durante a aula, o que só prejudica a atenção deles.
Pedro: (com impaciência): Você não compreende. É o que todo mundo quer. Você não gosta de tecnologia?
Mateus (sinceramente): Não.
Pedro: Pois eu, sim! Faria tudo para ter um iPhone. Tudo!
Narrador: Aquele instrumento de precisão, meu poderoso cérebro, começou a funcionar a todo vapor.
Mateus: (examinando o rosto dele com os olhos semicerrados): Tudo?
Pedro: (em um tom dramático): Tudo!
Narrador: Alisei o meu queixo e comecei a pensar. Eu, por acaso, sei onde conseguir um iPhone. Meu irmão já quis me dar um, mas eu realmente não me interesso por essas parafernálias tecnológicas. Acho que se eu pedisse ele não iria me negar.
E, também por acaso, Pedro tinha algo que eu queria. Não era dele, exatamente, mas pelo menos ele tinha alguns direitos sobre ela. Refiro-me à Jéssica. Eu há muito desejava Jéssica. Apresso-me a esclarecer que meu desejo não era de natureza emotiva. A moça, não há dúvidas, despertava paixões. Era daquelas que decretavam feriado nacional por onde quer que passasse. Todos paravam para vê-la passar. Até mesmo - ou principalmente - as mulheres, se corroendo de inveja... Mas eu não era daqueles que se deixam dominar pelo coração. Desejava Jéssica para fins engenhosamente calculados e inteiramente cerebrais.
Meu sonho era cursar Direito. Dali a alguns anos estaria me iniciando na profissão. Eu sabia muito bem a importância que tinha a esposa na vida e na carreira de um advogado. Os advogados de sucesso, segundo minhas observações, eram quase sempre casados com mulheres bonitas, graciosas e inteligentes. Com uma única exceção, Jéssica preenchia perfeitamente esses requisitos.
Ela era linda. Graciosa também era. Por graciosa, quero dizer, cheia de graças sociais. Finíssima! Tinha o porte ereto, a naturalidade no andar e a elegância que deixavam transparecer a melhor das linhagens. À mesa, suas maneiras eram finíssimas. Eu já vira Jéssica na cantina da escola comendo a especialidade da casa - um sanduíche natural de frango, com alface e molho - sem nem sequer umedecer os dedos.
Inteligente ela não era. Na verdade, tendia para o oposto. Mas eu confiava que, sob minha tutela, haveria de tornar-se brilhante. Pelo menos, valia a pena tentar. Afinal de contas, é mais fácil fazer uma moça bonita e burra ficar inteligente do que uma moça feia e inteligente ficar bonita.
Mateus: Pedro! Você ama Jéssica?
Pedro: Acho-a uma boa garota, mas não sei se chamaria isso de amor. Por quê?
Mateus: Você tem alguma espécie de arranjo formal com ela? Quero dizer, vocês saem exclusivamente um com o outro?
Pedro: Não. Às vezes ficamos juntos, mas saímos os dois com outros amigos também. Por quê?
Mateus: Existe algum outro homem de quem ela goste de maneira especial?
Pedro: Que eu saiba, não. Por quê?
Mateus (fazendo que sim, com a cabeça, satisfeito): Em outras palavras, a não ser por você, o campo está livre, é isto?
Pedro: Acho que sim... Que papo estranho é esse?
Mateus: (fingindo inocência): Nada, nada.
Pedro: Onde é que você vai?
Mateus: Vou para casa.
Pedro: (apegando-se ao braço de Mateus): Escute, em casa, será que você não poderia pedir dinheiro ao seu pai, e me emprestar para eu comprar o iPhone?
Mateus: (piscando o olho misteriosamente): Posso até fazer mais do que isso. Até segunda.
Narrador: Peguei minha bolsa e saí. O final de semana demorou a passar. Eu estava ansioso para encontrar Pedro na segunda e quando cheguei na escola fui logo falar com ele. Abri a bolsa e tirei o iPhone que ganhei do meu irmão.
Mateus: Olhe.
Pedro: Caraca!
Narrador: Pedro exclamou, com reverência. Enquanto colocava o fone de ouvido e explora os recursos do aparelho.
Pedro: (repetindo umas quinze ou vinte vezes): Caraca! Caraca! Caraca!...
Mateus: Você gostaria de ficar com ele?
Pedro: (gritando e apertando a engenhoca contra o peito): Claro, claro!...
Narrador: Em seguida, seus olhos tomaram um ar precavido.
Pedro: O que você quer em troca?
Mateus: A sua ficante.
Pedro: (sussurrando, horrorizado): Jéssica? Você quer a Jéssica?
Mateus: Isto mesmo...
Narrador: Ele tirou o fone do ouvido, enrolou no iPhone e me devolveu bruscamente.
Pedro: (resoluto): Nunca.
Narrador: Nessa hora eu dei de ombros...
Mateus: OK. Se você não quer ser antenado, o problema é seu...
Narrador: Sentei numa cadeira, coloquei o iPhone na mesa e fingi que lia um livro, mas continuei espiando Pedro, com o rabo dos olhos. Aquele era um homem partido em dois. Primeiro olhava o iPhone, com a expressão de uma criança de rua à porta de um restaurante. Depois dava-lhe as costas e cerrava os dentes, altivo. Depois, voltava a olhar para o aparelho, com uma expressão ainda maior de desejo no rosto. Depois, virava-se outra vez, mas agora sem tanta resolução. Sua cabeça ia e vinha, o desejo aumentando, a resolução “despencando”. Finalmente não se virou mais; ficou olhando para o iPhone com pura lascívia. O desejo falou mais alto.
Pedro: (balbuciando): Não é como se eu estivesse apaixonado por Jéssica ou mesmo fosse namorado dela, ou coisa parecida.
Mateus: (murmurando): Isso mesmo...
Pedro: Afinal, Jéssica significa o que para mim, ou eu para ela?
Mateus: Nada.
Pedro: Foi uma coisa banal. Nos divertimos um pouco, só isso... ficamos, às vezes.
Mateus: Ligue o iPhone.
Narrador: Entreguei o aparelho e ele obedeceu.
Pedro: (contente): O touch screen é incrível!
Narrador: Levantei da cadeira e perguntei, estendendo a mão:
Mateus: Negócio feito?
Pedro: (engolindo em seco e apertando a minha mão): Feito.
Narrador: Saí com Jéssica pela primeira vez na tarde seguinte. O primeiro programa teria o caráter de uma pesquisa preparatória. Eu desejava avaliar o trabalho que me esperava para elevar a sua mente ao nível desejado. Levei-a para comer pizza e ao cinema.
Jéssica: Puxa, que pizza massa!
Jéssica: Nossa, que filme massa!
Narrador: Levei-a para casa.
Jéssica: Puxa, foi um programa massa! Boa noite.
Narrador: Voltei para casa com o coração pesado. Eu subestimei gravemente as proporções da minha tarefa. A ignorância daquela moça parecia aterradora. E não seria o bastante apenas instruí-la. Era preciso, antes de tudo, ensiná-la a pensar. O empreendimento a que eu me propus era simplesmente gigantesco, e a princípio me vi inclinado a devolvê-la a Pedro. Mas aí comecei a pensar nos seus dotes físicos generosos, no olhar de inveja que ela despertava nos homens e mulheres quando “desfilava” pelos corredores da escola, na maneira como entrava numa sala ou segurava uma faca e um garfo, e aí, decidi tentar novamente.
Procedi, como sempre, sistematicamente. Decidi dar-lhe um curso de Lógica. Acontece, que no ano anterior eu já havia tido aulas de Filosofia e de Lógica formal, e, portanto, tinha tudo na ponta da língua quando a fui buscar para o segundo encontro:
Mateus: Jéssica, esta tarde iremos até o parque conversar.
Jéssica: Que massa!
Narrador: Uma coisa deve ser dita em favor da moça: seria difícil encontrar alguém tão bem disposta para tudo. Fomos até o parque, nos sentamos debaixo de uma grande árvore, e ela me olhou cheia de expectativa.
Jéssica: Sobre o que vamos conversar?
Mateus: Sobre Lógica.
Narrador: Ela pensou durante alguns segundos e depois sentenciou:
Jéssica: Massa! Massa!
Mateus: (comecei, limpando a garganta). A Lógica é o estudo do raciocínio. Se quisermos pensar corretamente, é preciso antes saber identificar as falácias ou sofismas, os erros mais comuns do nosso pensamento. É o que vamos abordar hoje.
Jéssica: (exclamou, sacudindo as mãos de alegria): Massa!
Narrador: Ela tinha a mesma expressão de perspicácia que se esperaria de uma foca diante da possibilidade de ganhar um peixe. Fiz uma careta de desânimo, mas segui em frente, com coragem.
Mateus: Vamos primeiro examinar uma falácia chamada generalização não qualificada.
Jéssica (piscando os olhos com animação): Vamos.
Mateus: Generalização não qualificada quer dizer um argumento baseado numa generalização. Por exemplo: o exercício físico é bom, portanto todos devem se exercitar.
Jéssica: (fervorosamente): Eu estou de acordo. Quer dizer, o exercício é maravilhoso. Isto é, desenvolve o corpo e tudo.
Mateus (com ternura): Jéssica, esse argumento é uma falácia. Dizer que o exercício é bom é uma generalização não qualificada. Por exemplo: para quem sofre do coração, o exercício é ruim. Muitas pessoas têm ordens de seus médicos para não se exercitarem. É preciso qualificar a generalização. Deve-se dizer: o exercício é geralmente bom, ou é bom pra maioria das pessoas. Senão, está se cometendo uma generalização não qualificada. Compreendeu?
Jéssica (puxando a manga da camisa de Pedro): Não. Mas isto é massa. Quero mais. Quero mais! Fala! Fala!
Mateus: Será melhor se você parar de puxar a manga da minha camisa! Em seguida, abordaremos uma falácia muito comum chamada generalização apressada. Ouça com atenção: você não sabe falar francês, eu não sei falar francês, Pedro não sabe falar francês. Devo, portanto concluir que ninguém na escola sabe falar francês.
Jéssica: (espantada): É mesmo? Ninguém? Nem uma pessoa?
Narrador: Reprimi a minha impaciência...
Mateus: É uma falácia, Jéssica. Essa generalização foi feita de maneira apressada. Não há exemplos suficientes para justificar essa conclusão.
Narrador: Ela sorriu encantadora, mas eu pensei: mas que cara de retardada!
Jéssica: (animada): Você conhece outras falácias? Isto é melhor do que dançar!
Narrador: Esforcei-me por conter uma onda de desespero que ameaçava me invadir. Não estava conseguindo nada com aquela moça. Absolutamente nada! Mas não sou outra coisa senão persistente. Quase teimoso. Continuei:
Mateus: A seguir, vem a ignorância de causa. Ouça: não vamos chamar o Flávio para ir à praia. Toda vez que ele vai junto, começa a chover.
Jéssica: Eu conheço uma pessoa exatamente assim! Uma moça da minha rua, Rafaela. Nunca falha. Toda a vez que ela vai junto à praia...
Mateus: (interrompendo com energia): Jéssica! Isso é uma falácia. Não é a Rafaela que causa a chuva. Ela não tem nada a ver com a chuva. Você estará incorrendo em ignorância de causa se puser a culpa na Rafaela.
Jéssica: (contrita): Nunca mais farei isso. Você está bravo comigo?
Mateus (suspirei): Não, Jéssica. Não estou bravo.
Narrador: Talvez fosse mais fácil ensinar Lógica a um chimpanzé.
Jéssica: Então conte outra falácia.
Mateus: Muito bem. Vamos experimentar as premissas contraditórias. Se Deus pode fazer qualquer coisa, então pode criar uma pedra tão pesada que Ele mesmo não conseguirá levantar!
Jéssica (imediatamente): É claro...
Mateus: (exclamando): Mas, se Ele pode fazer tudo, então Ele também pode levantar a pedra!
Jéssica: (pensativa): É mesmo! Bem, então, acho que Ele não pode fazer a tal pedra.
Mateus: Mas Ele pode fazer tudo.
Narrador: Ela coçou sua cabeça linda e vazia. Aquele cérebro poderia ser vendido como “zero quilômetros”. Jamais fora usado!
Jéssica: Estou confusa.
Mateus: É claro que está. Quando as premissas de um argumento se contradizem, não pode haver argumento. Se existe uma força irresistível, não pode existir um objeto irremovível. Compreendeu?
Jéssica: (entusiasmada): Não, mas conte outra destas histórias massas. Estou adorando!
Narrador: Consultei o relógio.
Mateus: Acho melhor pararmos por aqui. Levarei você para casa, e lá você pensará no que aprendeu hoje. Teremos outra sessão amanhã à tarde.
Narrador: Deixei-a em casa, onde ela me assegurou que a tarde fora realmente massa, e voltei completamente desanimado para o meu quarto. Por alguns segundos, brinquei com a ideia de procurar Pedro e dizer que podia ter sua ficante de volta.
Era evidente que meu projeto estava condenado ao fracasso. Aquela moça tinha, simplesmente, uma cabeça totalmente à prova de lógica.
Mas logo reconsiderei. Perdi uma tarde, por que não perder outra? Quem sabe se em alguma parte daquela cratera de vulcão adormecido, que era a mente de Jéssica, algumas “brasas” de inteligência ainda estivessem vivas? Talvez, de alguma maneira, eu ainda conseguisse abaná-las até que flamejassem... As perspectivas não eram das mais animadoras, mas acabei decidindo e tentei outra vez.
Sentado sob a mesma árvore, na tarde seguinte, disse:
Mateus: Nossa primeira falácia desta tarde se chama por misericórdia.
Narrador: Ela estremeceu de emoção.
Mateus: Ouça com atenção. Um homem vai pedir emprego. Quando o patrão pergunta quais são as suas qualificações, o homem responde que tem uma mulher e seis filhos em casa, que a mulher é aleijada, as crianças não têm o que comer, não têm o que vestir, nem o que calçar, e vive em um barraco que pode desabar durante as chuvas.
Narrador: Uma lágrima desceu por cada uma das faces de Jéssica.
Jéssica: (soluçando e quase chorando): Isso é horrível, horrível!
Mateus: É horrível, mas não é argumento. O homem não respondeu à pergunta do patrão sobre suas qualificações. Em vez disso, tentou despertar a sua compaixão. Cometeu a falácia por misericórdia. Compreendeu?
Jéssica: (entre soluços): Você tem um lenço?
Narrador: Dei-lhe o lenço e fiz o possível para não gritar de desespero, enquanto ela enxugava os olhos.
Mateus (controlando o tom da voz): A seguir discutiremos a falsa analogia. Eis um exemplo: deviam permitir aos estudantes consultar seus livros durante as provas. Afinal, os cirurgiões levam radiografias para se guiarem durante uma operação, os advogados consultam seus papéis durante um julgamento, os construtores têm plantas e projetos que os orientam na construção de uma casa. Por que, então, não deixar que os alunos recorram a seus livros durante uma prova?
Jéssica (entusiasmada): Pois olhe esta é a ideia mais massa que eu já ouvi na minha vida! Você é um gênio!
Mateus (com impaciência): Jéssica esse argumento é falacioso. Os cirurgiões, os advogados e os construtores não estão fazendo testes para provar o que aprenderam, e os estudantes sim. As situações são completamente diferentes e não se pode fazer analogia entre elas. Não tem jeito de comparar uma situação com a outra, entendeu?
Jéssica: Continuo achando a ideia massa.
Mateus: (murmurando e fazendo cara feia): Droga! A seguir, tentaremos a falácia hipótese contrária ao fato.
Jéssica: Ah! Essa parece ser boa!
Mateus: Ouça: se não fosse pela princesa Isabel, a escravidão jamais seria abolida no Brasil.
Jéssica (concordando e sacudindo vigorosamente a cabeça): É mesmo, é mesmo! Brilhante! Você viu a novela? Eu fiquei revoltada como os negros eram tratados. Aquele ator, o Caio Castro é tudo de bom! Ele me fez suspirar!
Mateus: (friamente): Se você conseguir esquecer o Caio Castro por alguns minutos, gostaria de lembrar que o que eu disse é uma falácia. A escravidão poderia ter acabado de alguma outra maneira. Talvez outra pessoa como o Dom Pedro II fizesse isto. Muita coisa poderia acontecer. Não se pode partir de uma hipótese baseada no acaso e tirar dela qualquer conclusão lógica.
Jéssica: Eles deveriam botar o Caio Castro em mais novelas. Ele é lindo!
Narrador: A impaciência voltou a me torturar. Pensei: como um ser humano pode ser tão ignorante? Decidi: mais uma tentativa! Mas só mais uma. A última! Há um limite ao que um homem pode suportar.
Mateus: A próxima falácia se chama envenenar o poço.
Jéssica: Credo!
Mateus: Dois homens vão começar um debate. O primeiro se levanta e diz: "Meu oponente é um mentiroso conhecido. Não é possível acreditar numa só palavra do que ele disser". Agora, Jéssica, pense bem. O que está errado?
Narrador: Vi-a enrugar a sua linda testa, concentrando-se. De repente, um brilho de inteligência - o primeiro que eu vira - surgiu em seus olhos.
Jéssica: (com indignação): Não é justo! Isso não é nada justo. Uma ex-amiga já tentou isso comigo! Que chance tem o segundo homem se o primeiro diz que é um mentiroso, antes mesmo dele começar a falar?
Mateus: (gritei exultante): Exato! Cem por cento exato! Não é justo. O primeiro homem envenenou o poço antes que os outros pudessem beber dele. Atou as mãos do adversário antes da luta começar... Jéssica: estou orgulhoso de você!
Jéssica: (murmurando, envergonhada): Ora....
Mateus: Agora vejamos a petição de princípio. Por exemplo: o cigarro prejudica a saúde porque faz mal ao organismo.
Jéssica (confiante): Isto não explica nada, é como se alguém dissesse: prejudica porque prejudica.
Mateus: (sorrindo): Exatamente! Este sofisma toma como verdade justamente o que está em discussão. Como vê minha querida, não é tão difícil. Só requer concentração. É só pensar, examinar, avaliar. Venha, vamos repassar tudo que aprendemos até agora.
Jéssica: (abanando as mãos): Vamos lá!
Narrador: Animado pela descoberta de que Jéssica não era uma cretina total, comecei uma longa e paciente revisão de tudo que dissera até ali. Sem parar, citei exemplos, apontei falhas, martelei “lógica” sem dar tréguas. Era como cavar um túnel. A princípio, apenas trabalho, suor e escuridão. Não tinha ideia de quando veria a luz, ou mesmo se a veria. Mas insisti. Dei duro, cavouquei até com as unhas, e finalmente fui recompensado. Descobri uma fresta de luz. E a fresta foi se alargando até que, finalmente, o sol jorrou para dentro do túnel, clareando tudo. Jéssica finalmente parecia ter sido apresentada ao “conhecimento”. Levei cinco tardes de trabalho forçado, mas valeu a pena. Eu transformei Jéssica em uma lógica, e a ensinei a pensar. Minha tarefa chegou a bom termo. Fiz dela uma mulher digna de mim. Somente agora ela estava apta a ser minha esposa, uma anfitriã perfeita para as minhas muitas mansões, uma mãe adequada para meus filhos privilegiados.
Não se deve deduzir que eu não sentisse amor pela moça. Muito pelo contrário. Na mitologia grega, Pigmaleão amava a mulher perfeita que moldou para si; eu também amava a minha doce Jéssica, que moldei com o suor do meu conhecimento. Decidi comunicar-lhe os meus sentimentos no nosso encontro seguinte. Chegou a hora de mudar nossas relações, de acadêmicas para românticas.
Mateus: Jéssica: hoje não falaremos de falácias.
Jéssica: (desapontada): Puxa!
Mateus: Minha querida (favorecendo-a com um sorriso) hoje é a quinta tarde em que estamos juntos. Nos demos esplendidamente bem. Não há dúvidas de que formamos um bom par.
Jéssica(exclamou alegremente): Isso é uma generalização apressada!
Mateus: Como?
Jéssica: Generalização apressada. Como é que você pode dizer que formamos um bom par baseado em apenas cinco encontros?
Narrador: Dei uma risada, divertido. Aquela criança adorável aprendeu bem suas lições.
Mateus: (dando um tapinha tolerante na mão de Jéssica) Minha querida, cinco encontros são o bastante. Afinal, não é preciso comer um bolo inteiro para saber se ele é bom ou não.
Jéssica: Falsa analogia. Eu não sou um bolo, sou uma pessoa. Não se pode comparar duas situações completamente diferentes e chegar à uma conclusão análoga!
Narrador: Dei outra risada, mas agora já não tão divertida. Essa criança adorável talvez tivesse aprendido sua lição bem até demais. Resolvi mudar de tática. Obviamente, o indicado era uma declaração de amor simples, direta e convincente. Fiz uma pausa, enquanto meu cérebro privilegiado selecionava as palavras adequadas. Depois comecei:
Mateus: Jéssica, eu a amo. Você é tudo no mundo para mim... é a lua e as estrelas... as constelações no firmamento. Por favor, minha querida, diga que será minha namorada, senão minha vida não terá mais sentido. Enfraquecerei, recusarei a comida, vagarei pelo mundo aos tropeções, me tornarei um fantasma de olhos vazios...
Narrador: Pronto! Eu pensei: está liquidado o assunto. Agora ela cai em meus braços!
Jéssica: Por misericórdia!
Narrador: Cerrei os dentes. Eu não era mais o Pigmaleão da mitologia; era o Dr. Frankenstein, e o monstro que eu havia criado me tinha pela garganta. Lutei desesperadamente contra o pânico que ameaçava me invadir. Era preciso manter a calma a qualquer preço.
Mateus: (forçando um sorriso): Bem, Jéssica não há dúvidas que você aprendeu bem as falácias.
Jéssica: Aprendi mesmo!
Mateus: E quem foi que as ensinou a você, Jéssica?
Jéssica: Foi você.
Mateus: Isso mesmo. E, portanto você me deve alguma coisa, não é mesmo, minha querida? Se não fosse por mim, você nunca saberia o que é uma falácia...
Jéssica: Hipótese contrária ao fato. Eu poderia descobrir através de outra pessoa, ou até mesmo sozinha, algum dia. Não se pode tirar conclusões definitivas baseadas em acasos.
Narrador: Enxuguei o suor do rosto, já lívido – o desespero afigurava-se nítido em meus olhos.
Mateus: (com voz rouca): Jéssica você não deve levar tudo ao pé da letra. Estas coisas só têm valor acadêmico. Você sabe muito bem que o que aprendemos na escola nada tem a ver com a vida.
Jéssica (brincando e sacudindo o dedo na minha direção): Generalização não qualificada. Quer que eu diga o porquê?
Narrador: Foi o bastante! Levantei-me num salto, berrando como um touro indomável:
Mateus (trovejei): Você vai ou não vai me namorar?
Jéssica: Não, eu não vou.
Mateus: Por que não?
Jéssica: Porque hoje à tarde prometi ao Pedro que seria a namorada dele.
Narrador: Quase caí para trás, fulminado por tamanha infâmia. Depois de prometer, depois de fecharmos negócio, depois de apertar a minha mão!
Mateus: (gritando e chutando a grama): Aquele safado! Você não pode sair com ele, Jéssica. É um mentiroso. Um traidor. Um rato.
Jéssica: Envenenar o poço! Que feio! E pare de gritar. Acho que gritar também deve ser uma falácia.
Narrador: Com uma admirável demonstração de força de vontade, modulei minha voz.
Mateus: Muito bem. Você é uma lógica. Vamos olhar as coisas de maneira lógica então. Como pode preferir o Pedro? Olhe para mim: um aluno brilhante, um intelectual formidável, um homem com o futuro assegurado. E veja Pedro um maluco, um boa-vida, um sujeito que nunca saberá se vai comer ou não no dia seguinte. Você pode me dar uma única razão lógica para namorar Pedro?
Jéssica: Posso, sim: ele tem um iPhone! A-do-ro!
Narrador: Ela saiu correndo para os braços do Pedro que se aproximava com o iPhone, colocou um dos fones no próprio ouvido, enquanto eu me culpava pela minha presunção.
Mateus: Amar é um grande erro, porque o amor é uma falácia.
Jéssica: (gritando de longe): E isso é uma Petição de princípio!
 Fim



Youtube, versão em vídeo:

Exercícios: 
Comente e lembre de se identificar corretamente.

Pesquise com seus colegas em jornais e revistas ou no Google pelo menos 4 exemplos de falácias, citando as fontes. Além do exemplo, indique o nome e a definição da falácia,.

Prazo, até 03/11/2014